7. ARTES E ESPETCULOS 3.4.13

1. LIVROS  O MELHOR MUNDO POSSVEL
2. LIVROS  IMPERADOR DA FRANA E DO INACREDITVEL
3. TELEVISO  A FAROFADA DO FARA
4. MSICA  UM OUVIDO DE OURO
5. CINEMA  ERA UMA VEZ
6. CINEMA  COMPLEXO DE SHERAZADE
7. VEJA RECOMENDA
8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
9. J.R. GUZZO  OS IMPORTANTES

1. LIVROS  O MELHOR MUNDO POSSVEL
O psiclogo canadense Steven Pinker busca provar, com instrumentos cientficos e matemticos, que nunca se viveu uma era to pacfica quanto a atual.
GABRIELA CARELLI

     Se o estado natural do homem, na ausncia de leis e instituies,  mesmo a violncia na sua forma mais pura e vil, e a vida sem freios  "repugnante, miservel, brutal e curta", como escreveu Thomas Hobbes em Leviat quatro sculos atrs, Darfur, no Sudo,  o pedao de terra onde os demnios que vivem em cada um de ns decidiram se encontrar  e se sentem livres para fazer o que s a eles convm. Nesse territrio africano do tamanho de uma Espanha, h dez anos assolado pela selvageria das disputas tribais, a maldade inata descrita por Hobbes se expressa sem escrpulo algum. A no ser pela contribuio de uma legio de voluntrios dispostos a doar o seu tempo para ajudar as vtimas dessa barbrie  que bem mais precioso pode haver? , seria impossvel crer, por um minuto sequer, na constatao de que o mundo de hoje  um lugar melhor para viver do que foi em qualquer outro instante do passado. Ou que a humanidade, graas a uma sucesso de eventos civilizatrios, desfruta atualmente um momento nico, o perodo mais pacfico de toda a sua histria. So esses dois argumentos a coluna dorsal de Os Anjos Bons da Nossa Natureza (traduo de Bernardo Joffily e Laura Teixeira Motta; Companhia das Letras; 1087 pginas; 74,50 reais, ou 39,90 na verso eletrnica), o mais recente e, por certo, controverso livro do psiclogo e neurocientista canadense Steven Pinker. Desde 1945, afirma o autor j nas primeiras pginas, o nmero de mortos em guerras, assassinatos e outras circunstncias violentas  proporcionalmente o menor dos ltimos 5000 anos. O sculo XX tambm no foi um dilvio de sangue, apesar das guerras mundiais, dos conflitos civis, do Holocausto e dos regimes totalitaristas. "O mundo mudou, e est bem melhor", afirma Pinker. 
     
     No fosse Pinker um respeitado professor da Universidade Harvard que se tornou uma celebridade intelectual planetria com anlises pitorescas do comportamento humano  luz da teoria da evoluo, a obra seria considerada, sem leitura prvia, uma alucinao obscena de um cientista qualquer entorpecido pela fama. Ou uma afronta ao sofrimento de milhes de pessoas. De que mundo Pinker est falando, afinal? S na primeira dcada deste sculo, este mundo assistiu aos atentados de 11 de setembro, descobriu que at na pacfica Noruega pode existir um maluco capaz de matar civis inocentes e percebeu que as chacinas escolares, antes vistas como coisa de jovem americano com acesso fcil a armas de fogo, comearam a despontar em todos os cantos do planeta, incluindo o bairro de Realengo, no Rio de Janeiro. O mal parece estar a todo momento em todo lugar  mas Pinker discorda. E prova sua tese com contas de soma, subtrao, diviso. Tudo depende da proporo: "Embora o sculo XX certamente tenha tido mais mortes violentas do que os anteriores, a populao mundial era bem maior", pondera o autor. "A populao do planeta em 1950 era de 2,5 bilhes, duas vezes e meia a de 1800, quatro vezes e meia a de 1600 e sete vezes a de 1300. As baixas de uma guerra em 1600 teriam de ser multiplicadas por 4,5 para que pudssemos  comparar a sua fora destrutiva ao total de mortes registradas em meados do sculo XX." Por essa lgica, os 8 milhes de pessoas que morreram durante a queda de Roma, entre os sculos III e V, equivaleriam, na metade do sculo passado, a 105 milhes de mortes, quase o dobro do total de vtimas fatais durante a II Guerra. 
     O entusiasmo de Pinker com as cincias exatas se arrasta pelos seis primeiros captulos. Num deles, o psiclogo invade a hermtica seara da fsica e utiliza o conceito de entropia para considerar as razes da violncia. "Uma frao infinitesimal dos estados do universo  ordenada o bastante para sustentar a vida e a felicidade, de modo que  mais fcil destruir e produzir misria do que cultivar e proporcionar felicidade", diz. Se por um lado a numeralha legitima matematicamente o argumento do psiclogo, por outro imprime  obra certa ingenuidade simplista, que enfraquece sua tese. Pois no h nem vai haver clculo capaz de mensurar algo to subjetivo quanto o sofrimento humano, ou de precisar quanto o ataque s Torres Gmeas foi menos  violento do que as torturas praticadas na Inquisio. 
     A despeito disso, a obra tem o mrito inquestionvel de ser um mergulho primoroso na histria da violncia. Equilibrando-se entre as descobertas da neurocincia  seu territrio  e a histria, o autor examina como o advento do estado, a institucionalizao da Justia e a difuso e o aprimoramento da cultura aprisionaram a maldade e cederam espao  ascenso dos anjos bons dentro de ns. S no fica claro  como essa tese, que lhe custou quinze anos de empenho, se articula com aquela que antes era a linha mestra da pesquisa de Pinker: chegar mais perto de entender o que pesa mais na formao da personalidade de um indivduo, se os fatores genticos ou os elementos ambientais e culturais. Trata-se de uma das discusses mais acuradas da cincia. Um mistrio que, a cada nova descoberta sobre o maquinrio gentico humano, se revela mais complexo do que se pensava. 
     Com a publicao de Como a Mente Funciona, livro de 1996 que explica o funcionamento do crebro de uma perspectiva darwinista, Pinker comeou a ganhar notoriedade e reputao. Ele se firmaria como estrela da divulgao cientfica seis anos depois, com Tabula Rasa, com o qual se incluiu na turma que acredita na preponderncia da gentica no desenvolvimento do carter, da inteligncia e dos temperamentos. Rebatia com veemncia os colegas opositores da ideia, os que acreditam que o ser humano  um papel quase em branco, no qual a personalidade  desenhada primordialmente pelas experincias. Pinker era to enftico que chegou a ser acusado  injustamente  de fazer uma apologia discreta da eugenia, a eliminao dos indivduos tidos como geneticamente inferiores. Em Os Anjos Bons..., ele parece ter se desviado de seu rumo. Aqui, a cultura avulta sobre a natureza: se os eventos histricos influenciaram a ndole humana para melhor, como Pinker insiste em dizer do incio ao fim, que fim levaram os genes?

FORAS DO BEM
Fenmenos histricos que, segundo o neurocientista Steven Pinker, ajudaram o lado pacfico da natureza humana a predominar no mundo contemporneo.

COMRCIO
A troca de mercadorias  uma estratgia pacificadora poderosa.  luz da biologia moderna, tais intercmbios explicam a evoluo da cooperao fora do parentesco. A expanso do comrcio na Baixa Idade Mdia fez o ndice de mortes violentas despencar. Na segunda metade do sculo XX, o mais longo perodo de absteno de guerras entre as grandes potncias, o comrcio internacional disparou.

EXPANSO DO CONHECIMENTO
Alfabetizao, urbanizao, mobilidade e acesso  informao so fatores que permitem aos indivduos conhecer pessoas de culturas, religies e pontos de vista diferentes. Expande-se assim o chamado crculo tico  o nmero de pessoas com cujas dores ns nos solidarizamos.

SOCIEDADE FEMININA
No, Pinker no  dos que acham que mulheres no poder so menos truculentas. Mas h diferenas biolgicas entre os sexos e, com a ascenso social e profissional das mulheres, as sociedades ocidentais vm se distanciando da cultura de honra viril, na qual imperam a retaliao violenta e a venerao  glria marcial.

GOVERNO
O monoplio da fora pelo poder legal limita a luta sem fim de todos contra todos  como postulou Thomas Hobbes, no sculo XVII, em Leviat, O total de mortes violentas diminuiu em um quinto quando, h 5000 anos, as tribos que sobreviviam da agricultura sucumbiram s primeiras cidades e estados organizados. Quando os feudos da Europa se coligaram em reinos e naes soberanas, a taxa de homicdios foi reduzida a um trigsimo.


2. LIVROS  IMPERADOR DA FRANA E DO INACREDITVEL
Uma biografia de Andr Maurois desvenda o maior acontecimento da Europa no sculo XIX: a ascenso de Napoleo Bonaparte.

     Napoleo Bonaparte (1769-1821)  a obra-prima do destino feito ficcionista.  quase inacreditvel que seja histria. No entanto, para pasmo renovado de quem mais uma vez l sua vida e considera os fatos, eis um senhor livro por um grande autor: Napoleo (traduo de Vera Giambastiani; Globo; 160 pginas: 34,90 reais), do francs Andr Maurois. A obra narra a histria do acontecimento magno do sculo XIX na Europa, que era todo o mundo de ento: o surgimento do imperador Napoleo I na poltica internacional e na vida dos povos. Maurois refaz uma lenda fascinante, a do menino nascido na Crsega e despachado para o centro da civilizao aos 9 anos de idade. Durante sua juventude, ocorre a Revoluo Francesa. Ele mesmo produto da agitao revolucionria, ele mesmo o resultado da anomalia, Napoleo comea a vida no meio da confuso e enceta a carreira mais espetacular de todos os tempos. 
     Firmeza para vencer desvantagens, arte poltica para manobrar seu prprio progresso, talento para comando militar, inteligncia para administrao civil  e sorte  conseguiram sua inexorvel ascenso at ser coroado Imperador dos Franceses, mastro e maestro da Europa. Sua mo moldou em detalhe a Franca Eterna: "No  como general que governo, mas porque a nao acredita que possuo os atributos civis para governar". Tudo certo, tudo no lugar: sucesso, poder, governo, leis, grandes feitos. Letizia, sua me, a Madame Mre do Imprio, murmurava, cautelosa:  "Contanto que isso dure...". Os inimigos existiam e, de tempos em tempos, juntavam-se contra ele, mas perdiam. At que a mar virou. 
     O fim da histria tambm  grandioso em sua prpria tragdia. Em 1815, vencido enfim pela coalizo intermitente de austracos, ingleses, russos e prussianos, ele pega um barco e entrega-se a uma fragata inglesa em misso ao largo de Rochefort. Mas entrega-se com a elegncia das lendas: "Qual Temstocles, venho abrigar-me na morada do povo ingls. Ponho-me sob a proteo das leis desse povo, proteo que solicito ao mais poderoso, mais firme e mais generoso dos meus inimigos". Ressabiados com a aventura de sua fuga da Ilha de Elba aps a abdicao anterior, um ano antes, os vitoriosos dessa vez no deixam margem a erro: o general Buonaparte, como preferiam cham-lo os ingleses,  levado sob guarda para os confins de Santa Helena, no meio do Oceano Atlntico, onde seis anos depois, longe de tudo e de todos, a morte vem busc-lo. Tambm para o finis, esta histria  quase inacreditvel. 
SRGIO BARCELLOS


3. TELEVISO  A FAROFADA DO FARA
Em sua nova srie bblica, a Record pisa num terreno onde mesmo Hollywood tropeou: a recriao do antigo Egito. No d outra, claro: at as pirmides esto fora do lugar.

     Em fevereiro, 400 atores e figurantes formaram fila nos estdios da Record, no Rio de Janeiro, para se submeter a certo sacrifcio '"pela arte". As mulheres tiveram a cabea raspada. Alm de passarem pela mquina zero, os marmanjos foram obrigados a depilar o peito, os braos e as pernas. "Alguns tentaram resistir. Mas sabe que acabaram gostando?", diz Vav Torres, diretor de caracterizao da emissora. A aposta nos raspadinhos marcou a entrada em nova fase da srie bblica Jos do Egito, no ar h dois meses nas noites de quarta-feira. Aps ser jogado num poo e vendido como escravo pelos irmos, o hebreu Jos, personagem do Gnesis e filho do patriarca Jac, enfim chegou ao pas dos faras. Com a virada, a rede dirigida pelos bispos da Igreja Universal do Reino de Deus adentrou um terreno pantanoso, no qual mesmo produes de Hollywood caram no ridculo. Pois o antigo Egito  sempre um comit  extravagncia e ao mau gosto. No deu outra: o resultado  uma farofada de fazer a mais mansa das mmias revirar-se no sarcfago. A gala brega vai durar at agosto  e, em 2014, dever prosseguir numa srie sobre Moiss. 
     "No h cuidado nem com o texto bblico nem com a arqueologia", diz o egiptlogo Antonio Brancaglion Jr., do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Embora a Bblia no fornea indcios sobre o perodo em que se desenrolaria a histria, a srie d de barato que tudo se passou por volta de 1585 a.C, quando o Egito estava sob domnio de uma tribo estrangeira, os hicsos. Ao chegar  capital, Avaris, Jos (quando jovem, Ricky Tavares) enxerga as pirmides como se estivessem logo ali. " uma bobagem: elas ficavam a uns 200 quilmetros da cidade", informa Brancaglion. O sacerdote careco que faz as vezes de vilo cultua o deus egpcio Seth  cuja figura, nos primrdios do cristianismo, se confundia com Sat. Dada a fixao dos bispos pelo tema,  de perguntar se tal contrabando foi s obra do acaso. 
     Captadas no Egito e no Chile, as cenas de paisagens do para o gasto. O problema  que Deus, definitivamente, no mora nos detalhes da produo. O gasto anunciado  de 850.000 reais por captulo, mas h itens que parecem sados de loja de 1,99 real  como as almofadas em "estilo oriental" novinhas em tendas de tempos remotos. A Record queria evitar semelhanas com filmes como Clepatra, por considerar a produo de 1963 com Liz Taylor muito "carnavalesca''. A suposta inspirao  no v cair da cadeira, leitor   a srie Game of Thrones, da HBO. Mas, diante das tnicas esvoaantes, dos olhos de Clepatra kitsch e dos cocos lustrosos, d no mximo para extrair dali um refro de marchinha:  dos carecas que os bispos gostam mais. 
MARCELO MARTHE


4. MSICA  UM OUVIDO DE OURO
Clive Davis, um dos maiores executivos da msica, lana uma autobiografia em que fala dos artistas com quem trabalhou e assume, aos 80 anos, ser bissexual.
SRGIO MARTINS, DE AUSTIN

     A arrogncia do executivo da indstria fonogrfica Clive Davis est bem resumida em uma piada corrente no meio musical: ele  to egocntrico que acha que o CD  uma homenagem s iniciais do seu nome. Davis pode se permitir a imodstia. Um dos ltimos remanescentes do perodo ureo do mercado fonogrfico que a cultura digital veio enterrar, ele descobriu, em mais de quatro dcadas de carreira, talentos como Janis Joplin, Aerosmith e Jefferson Airplane. Tambm impulsionou a carreira de Patti Smith, Whitney Houston e Alicia Keys e ressuscitou os ento desacreditados Santana e Rod Stewart. Recm-lanada nos Estados Unidos, The Soundtrack of My Life (A Trilha Sonora da Minha Vida), autobiografia do executivo, traz uma revelao que pouco tem a ver com msica ou negcios: aos 80 anos, pela primeira vez Davis assume publicamente sua bissexualidade. "Meus dois casamentos fracassaram porque demorei a aceitar que gostava de mulheres e tambm de homens", disse o executivo em uma palestra de divulgao do livro no festival South by Southwest, em Austin, Texas. Segundo Davis, sua primeira relao homossexual, nos anos 70, deu-se em um lugar que simbolizou a liberao e o desbunde do perodo: o Studio 54, a celebrrima discoteca de Nova York. Mais acomodado na atual idade provecta, Davis vive com o mesmo parceiro h sete anos. 
     Clive Davis encarna essa figura mtica da cultura empresarial americana: o self-made man. Natural de Nova York, perdeu os pais na adolescncia e foi morar com uma irm no Queens, bairro "popular" da cidade. Com a ajuda de uma bolsa de estudos, frequentou as universidades de Nova York e Harvard, formando-se em direito. Em 1960, foi contratado como consultor jurdico pela gravadora Columbia Records (uma subsidiria da CBS). Sete anos depois, tornou-se presidente da companhia. Davis abriu espao para uma nova gerao de artistas do rock, at ento esnobados pelo selo. Uma de suas apostas foi Janis Joplin. Em suas memrias, Davis conta que o empresrio da cantora procurou-o para dizer que ela desejava ter com ele uma relao mais "significativa" do que um simples contrato comercial. Davis recusou a oferta. O executivo acabou demitido da Columbia em 1973, em meio a um escndalo envolvendo o suborno de radialistas e at o desvio de dinheiro para financiar o bar mitzvah do filho. No livro, Davis adota o que se poderia chamar de linha petista de defesa: foi tudo obra dos outros, e ele no sabia de nada. Depois de deixar a gigantesca Columbia, Davis criou duas gravadoras, Arista e J Records. Hoje, trabalha como diretor de criao da Sony Music. 
     The Soundtrack of My Life  um livro sbrio, sem pendor para o escndalo. Mas, quando entrega as falhas  de talento e de carter  dos artistas com quem trabalhou, o autor o faz de forma devastadora. Revela que Paul Simon tinha inveja mortal de Art Garfunkel, que nos shows ganhava mais ateno do pblico. Barry Manilow no entendia por que Davis, em vez de aceitar suas composies, vivia lhe empurrando obras de outros autores. "Se voc tivesse o talento de um Irving Berlin, a gente teria percebido logo de cara", respondeu o executivo. Ele tambm ironiza os melindres de Kelly Clarkson: a vencedora do programa American Idol, do qual Davis  consultor, resistiu a incluir no disco as canes que logo se tornariam a razo de seu sucesso. A amizade com Whitney Houston, que Davis trouxe para a gravadora Arista quando ela tinha 19 anos, responde por alguns dos melhores trechos do livro  e por um momento comovente na palestra em Austin. "No dia em que ela morreu, ns passamos a tarde juntos. Pensei que ela estivesse realmente se livrando das drogas", contou Davis, com a voz embargada e uma discreta lgrima no olho esquerdo. O amigo terno, porm, logo volta a dar lugar ao executivo enrgico. "Ponha o som no volume mximo! Se eu aguento, a plateia tambm aguenta", ordenou ao tcnico de som do festival, que insistia em colocar as demos de Clive Davis num volume tolervel. Barry Manilow, cujos dotes de compositor Davis menospreza, foi quem melhor o definiu: "Clive Davis tem a cabea de um executivo de banco e o ouvido de um adolescente". 

Uma especulao sobre Whitney Houston que nunca cessou  que eu era uma espcie de Svengali e ela no passava de uma marionete. O boato  um insulto tanto para Whitney quanto para mim. Ela podia ser jovem quando eu a conheci, mas nunca foi ingnua.

TOQUE DE MIDAS
O papel do executivo na carreira de alguns astros, segundo ele relata em seu livro de memrias
A primeira vez que assisti ao Aerosmith foi em 1972. O carisma de Steven Tyler era indiscutvel, apesar de eu achar que ele ento imitava muito Mick Jagger. Fiquei maravilhado quando Tyler cantou, em No Surprize: 'E ento o velho Clive Davis disse, 'Farei de voc uma estrela'".

O disco de Janis Joplin precisava fazer sucesso. Cortei trechos de Piece of My Heart e repeti o refro, para que grudasse na cabea das pessoas. Janis disse que no concordava, mas respeitaria a deciso da gravadora. O disco alcanou o primeiro lugar na parada.

Kelly Clarkson disse que detestava as msicas e no queria trabalhar com os produtores que eu havia escolhido. Fiquei chocado. Disse que no tiraria as msicas do disco. Kelly chorou e saiu da minha sala sem dizer uma palavra. Bem, o disco vendeu 12 milhes de cpias no mundo inteiro.


5. CINEMA  ERA UMA VEZ
Em sua tima verso de Joo e o P de Feijo, o diretor Bryan Singer faz, que alvio, o elementar: honra a fbula.

     Jack vai ao mercado vender um cavalo, troca-o por um punhado de feijes mgicos e, sem querer, deixa que um deles caia ao solo  e o colossal p de feijo que brota dali abre caminho para que gigantes famintos por carne humana invadam o reino em que a histria se passa. Se Branca de Neve e o Caador, Espelho, Espelho Meu e Oz: Mgico e Poderoso drenaram o sangue de enredos consagrados com seu revisionismo sem alma, em Jack  O Caador de Gigantes (Jack lhe Giant Slayer, Estados Unidos, 2013), desde sexta-feira em cartaz no pas, o diretor Bryan Singer faz um favor e tanto  plateia: deixa a fbula em paz e trata apenas de conceb-la para o cinema da melhor forma possvel, com a elegncia visual que  uma de suas caractersticas. E tambm com uma cadncia narrativa que, para a parcela do pblico educada na montagem convulsiva de Vingadores e Transformers, talvez parea mais defeito que qualidade. 
     Quem prefere algum encanto ao atordoamento, porm, talvez aprecie o cuidado com que Singer apresenta seus protagonistas, a perseverana com que ele se aferra  inocncia deles e a lealdade com que ele conjura a Idade Mdia de fantasia do conto original. To de fantasia, claro, que nela um campons como Jack (Nicholas Hoult) tem a oportunidade de descobrir interesses em comum com a princesa Isabelle (Eleanor Tomlinson): a despeito de suas origens to diferentes, ambos tm sede de aventura e a cabea meio nas nuvens, graas ao hbito da imaginao incutido neles desde a infncia por seus pais. E  nas nuvens mesmo que Isabelle vai parar. Descendente direta do rei que sculos antes derrotou os gigantes e os aprisionou nos cus, a princesa exala um aroma que desperta nesses monstros um terrvel desejo de vingana. L se vo ento Jack, o cavaleiro Elmont (Ewan McGregor), o rei (Ian McShane) e um conselheiro malvolo (Stanley Tucci) atrs da refm. 
     O Caador de Gigantes, no entanto, no  uma verso edulcorada de Joo e o P de Feijo: parte de seu apelo est no contraponto entre a doura de Jack e Isabelle e a evocao tenebrosa dos gigantes  que so imundos, violentos, feios como criaturas que ficaram inacabadas e dados a mastigar suas vtimas em cena. E so tambm algo trgicos. Eis a outra virtude do filme, que pode ser encontrada em quase todos os trabalhos do diretor: a habilidade para dar uma escala humana no apenas  ao, mas tambm aos sentimentos de seus personagens (que, para comear, tm sentimentos), sobressai tanto nas suas produes injustamente desprezadas, como Superman  O Retorno, quanto nas merecidamente festejadas, como os dois primeiros X-Men. Foi essa adaptao dos quadrinhos, alis, que inadvertidamente inaugurou a era atual da hiper-ao, cujo ritmo massacrante atropela, do ponto de vista da venda de ingressos, o estilo mais imaginativo e circunspecto de Singer. Ele criou o gigante, e este agora ameaa devor-lo. 
ISABELA BOSCOV


6. CINEMA  COMPLEXO DE SHERAZADE
Em Dentro da Casa, o melhor filme da carreira de Franois Ozon, um aluno enreda seu professor na teia da narrativa.

     Exasperado com a mediocridade de suas turmas, o professor de literatura do segundo grau Germain (Fabrice Luchini) como que leva um solavanco ao ler a redao de Claude (Ernst Umhauer), de 16 anos: escrevendo com um escrnio que fere um pouquinho o senso de moral do professor, mas em uma prosa que enreda e seduz, o menino conta como, no fim de semana anterior, matou uma antiga curiosidade e entrou na casa do colega Rapha. Claude fala do esprito simplrio de Rapha Filho, do humor meio bronco de Rapha Pai e descreve a aparncia, o cheiro, a voz da me, Esther (Emmanuelle Seigner). E, em vez de pr um ponto final no texto, atia: "Continua". A mulher de Germain (Kristin Scott Thomas) acha que ele tem de dizer a Claude que  reprovvel desdenhar assim dos outros e cobiar to abertamente a dona da casa  mas tambm ela cede  provocao do "continua". E, a cada nova redao, o casal estar mais perdido no labirinto narrativo que o rapaz vai tecendo, como uma espcie de verso prosaica e bisbilhoteira da princesa persa Sherazade de As Mil e Uma Noites. Tambm o espectador sucumbe ao fascnio: Dentro da Casa (Dans la Maison, Frana, 2012), desde sexta-feira em cartaz no pas,  o mais burilado, ardiloso e saboroso filme da prolfica carreira do cineasta Franois Ozon  toda ela marcada, justamente, pela astcia e pelo sabor. 
     Ozon, de Swimming Pool, Sob a Areia, Potiche e Ricky, no  dado a esconder nem atenuar as falhas de carter de seus personagens. Mas  menos dado ainda a censur-las, exercendo uma tolerncia que  ao mesmo tempo bem gaulesa e muito particular sua. Em Dentro da Casa, essa empada marota para com o voyeurismo de Claude e Germain cria uma sensao de liberdade arrebatadora: talvez Claude esteja mesmo seduzindo todos dentro da casa do colega (para quem no pescou a referncia, os prprios personagens se encarregam de fazer a citao a Teorema, de Pasolini), conforme conta em seus textos. Ou talvez esteja inventando tudo. Pouco importa: se no filme de 1968 o protagonista usava o sexo para desnudar as hipocrisias e destruir a falsa harmonia pequeno-burguesa de uma famlia, aqui a arma de Claude  a narrativa. O prprio ato de observar (seja a estreiteza da famlia de Rapha, seja as fraquezas do professor), e ento usar esse conhecimento para cativar o leitor ou atingi-lo nos seus pontos vulnerveis,  o elemento que seduz, subverte, expe e abala. E vicia: na deliciosa argumentao que  Dentro da Casa, h um poder inebriante em entender a natureza humana  e em saber entret-la, como fazem este Sherazade de colgio e tambm seu criador. 
ISABELA BOSCOV


7. VEJA RECOMENDA
BLU-RAY
A ESTRANHA VIDA DE TIMOTHY GREEN (THE ODD LIFE OF TIMOTHY GREEN, ESTADOS UNIDOS, 2012. DISNEY)
 A receita da Disney para o "filme-famlia" leva mesmo muito acar, mas no necessariamente desagrada ao paladar. Aqui, faz a diferena o tempero algo surreal: devastados com a notcia de que no podero conceber, Jim e Cindy (Joel Edgerton e Jennifer Garner) se despedem do sonho de ter uma famlia anotando em papeizinhos todas as qualidades que desejariam em um filho seu, colocando-os numa caixa e ento enterrando-a no jardim. Durante a noite, vem uma tempestade. E, de madrugada, l est Timothy, um menino de seus 10 anos, coberto de lama e  o detalhe fantstico  com folhas nascendo de seus calcanhares. Interpretado pelo jovem veterano CJ Adams, uma dessas crianas que parecem ter o dom de achar sempre a nota certa, Timothy suporta com graa infalvel os tropeos dos pais iniciantes e at os rompantes de narcisismo destes (sim, o garoto  tudo o que eles haviam imaginado). Mas sua passagem pela vida de Jim e Cindy se anuncia efmera: com o outono, no s as folhas das rvores comeam a cair, mas tambm as que Timothy obedientemente esconde sob as suas meias.

LIVROS
CONFEITARIA COLOMBO  SABORES DE UMA CIDADE, DE RENATO FREIRE E ANTONIO EDMILSON MARTINS RODRIGUES (CASA DA PALAVRA; 256 PGINAS; 98 REAIS)
 Na virada do sculo XIX para o sculo XX, o Rio de Janeiro, sempre mirando Paris como modelo, transformava-se em uma metrpole moderna, capital de uma recm-declarada repblica. Nesse cenrio, as confeitarias representavam o papel de ponto de encontro da intelectualidade. Fundada em 1894, a Confeitaria Colombo, no centro carioca, desbancou casas mais antigas e atraiu nomes como Olavo Bilac e Machado de Assis. Escrito em colaborao pelo historiador Antonio Edmilson Martins Rodrigues e pelo atual chef da Colombo, Renato Freire, Confeitaria Colombo, mais do que um livro de gastronomia,  um relato histrico dos costumes do Rio do fim do sculo XIX at os dias de hoje. Traz fotos e imagens de poca sensacionais. E, claro, tambm inclui as receitas tradicionais da casa, como a empadinha de galinha.

LANTERNA MGICA, DE INGMAR BERGMAN (TRADUO DE MARION XAVIER; COSACNAIFY; 320 PGINAS; 87,50 REAIS)
 Publicada em 1987  duas dcadas antes da morte do diretor sueco , essa autobiografia estava havia tempos fora de catlogo. Revelando-se mais loquaz e, em alguns momentos, mais divertido do que em seus filmes, Bergman conta sua vida de maneira episdica, sem respeitar a ordem cronolgica. Mas o olhar impiedoso sobre as pessoas e o pessimismo arrasador so os mesmos encontrados em obras-primas como Morangos Silvestres e Gritos e Sussurros. Curiosamente, Bergman faz brevssimas consideraes a respeito dos filmes que dirigiu, e tambm  discreto quanto aos atores com que trabalhou e s mulheres que amou. O que importa so as emoes vividas em diferentes pocas  sobretudo na infncia  e a maneira como ele se empenhava para traduzir essas experincias em arte. Esta reedio traz como introduo a clebre resenha do livro escrita por Woody Allen para o The New York Times. 

DISCO
OLD SOCK, ERIC CLAPTON (UNIVERSAL)
 Nos anos 60, o cantor e guitarrista Eric Clapton era aclamado como "Deus" pelos fs de blues da Inglaterra. Como integrante do supergrupo Cream ou nos discos-solo dos anos 70, ele justificou o epteto hiperblico  mas, sobretudo nos anos 80, o desonrou com trabalhos marcados pela indolncia artstica. Mais recentemente, Clapton d mostras de que o peso da divindade no o incomoda mais. Ele vem lanando trabalhos descompromissados, com msicas e estilos que lhe agradam. Embora no tragam a genialidade que marcou suas obras do passado, so lbuns de fcil audio, nos quais Clapton mostra uma generosa cultura musical, que vai do jazz ao reggae, do blues ao soul. Old Sock tem apenas duas canes inditas: Every Little Thing e Gotta Get Over, ambas compostas por Doyle Bramhall II, guitarrista da banda de Clapton, em parceria com Justin Stanley e Nikka Costa (sim, a menininha que cantava On My Own). H momentos deliciosos, como a releitura de Till Your Wells Run Dry, bem prxima da verso original de Peter Tosh, e Still Got the Blues, do guitarrista irlands Gary Moore  na qual Clapton d uma interpretao mais doda. Clapton ainda canta com Paul McCartney em uma verso do Standard All of Me.

EXPOSIO
NOSTALGIA PARA O FUTURO (EM CARTAZ NO CENTRO BRASILEIRO BRITNICO, EM SO PAULO, AT 21 DE ABRIL)
 A parede branca cravada de flechas negras do artista ingls Ryan Gander (obra cujo ttulo quilomtrico pode ser resumido e traduzido como Uma Ilustrao da Fsica de uma Discusso) resume as intenes da mostra que rene quarenta trabalhos do acervo da Lisson Gallery de Londres: tenso, ironia e fragmentao. A galeria, fundada em 1967, foi uma das pioneiras na explorao da arte conceitual e minimalista produzida ento na Inglaterra e nos Estados Unidos. Nas dcadas seguintes, seguiu promovendo jovens talentos e outras ondas  como a dos Novos Escultores Britnicos, nos anos 80, cujo maior expoente, o indiano Anish Kapoor, est presente na exposio. Tambm h esculturas de Tony Gregg, pinturas de John Lathan, assemblages do coletivo Art & Language, uma tela "desconstruda" de Angela de la Cruz que lembra um parangol de Hlio Oiticica e o letreiro em laser de Jonathan Monk que d nome  exposio. Apesar de modesta em tamanho, Nostalgia para o Futuro funciona como um passeio por alguns exemplos significativos da arte contempornea internacional nos ltimos cinquenta anos. 


8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
4. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
5. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS
6. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA 
7. Uma Curva na Estrada  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
8. A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA 
9. Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA
10.   Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA

NO FICO
1. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
2. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR
3. O Homem que No Queria Ser Papa  Andreas Englisch. UNIVERSO DOS LIVROS
4. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR 
5. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD
6. Os Argentinos  Ariel Palacios. CONTEXTO
7. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO 
8. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA 
9. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA 
10. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kevin Maurer. PARALELA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
2. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
3. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
4. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
5. Mentes Brilhantes  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS 
6. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
7. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE
8. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
9. Como Convencer Algum em 90 Segundos  Nicholas Boothman. UNIVERSO DOS LIVROS
10. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE 


9. J.R. GUZZO  OS IMPORTANTES
     O cidado brasileiro Eike Batista, controlador de um conjunto de empresas com sede no Rio de Janeiro, faz parte de um certo tipo de gente que acaba classificada como "importante". Eis a uma palavra de significado duvidoso. Pode ser uma descrio positiva para algo ou para algum. Pode ser tambm, e a a coisa j complica, uma boia de salvao para valorizar pessoas, obras ou acontecimentos quando no existe, no mundo dos fatos reais, um mnimo de fundamento capaz de justificar essa valorizao. No importa se uma pessoa tem ou no tem virtudes. No importa, na verdade, o que tenha feito ou deixado de fazer. Basta conseguir que a chamem de "importante"  vai passar a vida inteira sendo elogiada, sem que ningum nunca saiba exatamente por qu, e sem que precise mostrar servio.  um fenmeno muito comum na cultura. H o "escritor importante"  mas ningum se lembra de um nico livro realmente bom que tenha escrito. H, na mesma linha, o msico, o pintor, o diretor de cinema, o filsofo, o crtico que ganham a comenda de "importante"  e at mesmo, nos casos de bobagem em estado terminal, os que so considerados os "mais importantes de sua gerao". No  difcil, nisso tudo, separar o artigo legtimo do cavalo paraguaio. Nunca passa pela cabea de ningum, digamos, dizer que Cames  um "escritor importante"  ele , apenas, Cames. No precisa ser chamado de "importante"; tem a fama porque tem a obra. J no caso das eminncias com mritos desconhecidos,  o contrrio: no tm a obra, s tm a fama. 
     A causa disso est nos jornalistas, uma espcie que, pelas condies naturais do seu habitat, desenvolve um forte instinto de manada; se um deles, ou um grupo, comea a falar de um assunto, a maioria sai correndo atrs para falar da mesma coisa, o tempo todo.  o que aconteceu com Eike Batista. Alguns anos atrs, ele comeou a aparecer na mdia; logo ganhou dos jornalistas o certificado de "empresrio importante", e desde ento  raro que se passem trs dias seguidos sem que o seu nome seja citado em algum lugar. Ajudaram-no, sem dvida, o fato de ter aparecido nessas listas de homens "mais ricos do mundo", cuja veracidade  algo que jamais foi possvel provar de maneira satisfatria, e sua disciplina em manter-se  disposio da imprensa 24 horas por dia. Mas onde esto, precisamente, seus feitos concretos como empresrio? 
     Eike, no noticirio, est num eterno "vai"  vai fazer, investir, negociar, estudar, comprar, vender, associar-se. No se fala, depois, no resultado dessas intenes. Nem mesmo a mera reforma do histrico Hotel Glria, no Rio de Janeiro  que deveria ser coisa modestssima para a imensido de sua fortuna , parece dar sinais de vida. Eike comprou o hotel cinco anos atrs. Nesse tempo todo, alm da tela de malha sinttica que cobre a sua fachada, tudo o que os cariocas puderam ver da reforma  que ela no vai ficar pronta para a Copa de 2014, como prometido, e que o BNDES j deu 200 milhes de reais para financiar a obra. Um dos seus poos de petrleo em alto-mar, que deveria produzir "20.000" barris por dia, viu-se discretamente reavaliado, depois, para 10.000, em seguida para 5000; no se fala mais do assunto. Na verdade, o que mais se noticia hoje so as perdas de Eike;  o mesmo efeito manada, agora na contramo. 
     Problema dele? No; infelizmente  problema nosso. Em sua ltima edio, VEJA mostrou, com fatos e fotos, Eike, o ex-presidente Lula e o lobista Amaury Pires Neto numa visita feita em janeiro ao Porto do Au, no estado do Rio, uma das mais louvadas realizaes do empresrio importante  e que, como tantas outras, no decolam. (Esse Pires  homem de procedncia garantida: demitido em 2011 do Fundo da Marinha Mercante, no meio da frentica roubalheira flagrada ento no Ministrio dos Transportes, tem linha direta com o deputado Valdemar Costa Neto, condenado a sete anos e dez meses de cadeia no mensalo.) Lula, a, estava na mesma atividade de Pires  fazendo lobby em favor de Eike. O objetivo era obter do governo a transferncia para o Au de um investimento estrangeiro de 500 milhes de reais. Lula foi  luta: pediu  presidente Dilma Rousseff que recebesse Eike, botou dois ministros a trabalhar para o empresrio e envolveu at o Itamaraty nesse rolo. Isso no deu em nada, at agora, por falhas operacionais da trama. Mas provou que, alm daqueles duzentinhos do BNDES, h uma proximidade perigosa entre Eike Batista e o Tesouro Nacional  perigosa no para ele, claro, mas para quem paga as contas do Brasil para Todos. 


